As moças de 89*


O ano de 1989 marcou irremediavelmente o fim de todas as nossas certezas. O mundo bipolar, dividido entre os bonzinhos do ocidente (nem tão bonzinhos assim, como sabemos…) e os mauzinhos de Moscou começou a ruir quando a Hungria abriu sua fronteira com a Áustria, rompendo o dique da cortina de ferro e dando origem a um dos maiores movimentos migratórios já vistos após a Segunda Guerra Mundial (impossível não lembrar, com um arrepio, dos trens da liberdade…).

A música, como não poderia deixar de ser, reflete este estado de espírito. Bandas darks e góticas como The Cure, The Mission, Type O Negative e tantas outras dominam o cenário. No Brasil, Marina – só se tornaria Marina Lima anos mais tarde – cantava “…meu amor não vai haver tristeza, nada além de um fim de tarde a mais…”, Sarney e seu bigode governam o país e a inflação de 80% ao mês dá origem a um certo caçador de marajás, vindo lá das Alagoas…

De repente, não mais que de repente, surge Madonna, com os peitos pontudos de Gaultier. “Ouando você chama meu nome, é como uma pequena prece”, canta ela em Like a prayer. No clipe, a imagem de um santo negro ganha vida e tasca um belo beijo na cantora, enfurecendo conservadores, monges, clérigos, a Igreja e certamente a Liga das Senhoras Católicas de Santana (ponto para Madonna!!!).

Santidade e pecado; erotismo e fé. É exatamente esta a inspiração das moças de 89. Genuinamente belas, pois nesta época o silicone geralmente era utilizado, com conseqüências nefastas, apenas por travestis. Nascidas logo após à Redentora (também conhecida como o golpe ou revolução de 1964), elas sabiam exatamente o que queriam. Tinham postura, atitude. Trouxeram para as ruas a ousadia antes vista somente nas praias, deliciosamente misturando sutiãs à mostra e blusas transparentes com terços e crucifixos. Se por um lado buscavam maior espaço e reconhecimento social, por outro desejavam relações mais estáveis, homens mais sensíveis e o fim do ranço machista que ainda existia.

Corte rápido. 15 anos se passaram e já estamos no outono de 2004. O mundo tornou-se multipolar e muito mais perigoso. Os mauzinhos, nestes tempos, utilizam o terrorismo como tática e o Corão como ideologia ou ocupam a presidência das terras do Tio Sam. As mocinhas de hoje, filhas da “geração saúde”, continuam belas, porém menos genuínas. Peitinhos turbinados, bundinhas – meticulosamente construídas nas academias de ginástica – empinadas e, com raras e honrosas exceções, nada ou quase nada na cabeça. Dublês de corpo.

Se as moças de 89 pecavam pelo excesso de “papo-cabeça”, a indissoluta vontade de a tudo discutir, questionar, entender, as de 2004 pecam pelo alheiamento. A tudo temem, pois tudo lhes é estranho. Não sabem bem o que querem ou se querem alguma coisa. A vida, na maior parte dos casos, constitui-se de um tedioso interregno entre as baladas onde sacolejam ao som de música ruim (a maioria acredita que a música só começou a partir do nirvana…) e a quilômetros de distância de seus parceiros. Namoram seus correspondentes do sexo masculinos, os machinhos, menininhos metidos à besta, cujo maior objeto de desejo é um carrinho 1.0 ornado com neons de gosto duvidoso e que as tratam como mero artigo de decoração.

E são eles, os machinhos, que proíbem suas namoradas de usarem certos tipos de roupas, controlam suas amizades, dizem o que podem ou não fazer. E as mocinhas de 2004 aceitam tais imposições, absurdas em todos os sentidos, com a placidez das convertidas, em claro retrocesso às conquistas da geração anterior. Essas moças de 2004 têm muito o que aprender…

*texto escrito por mim em abril de 2004

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One thought on “As moças de 89*

  1. PERFEITO, consegui captar (relembrar) o clima da época e consegue transmitir essa passada de tempo e as diferenças culturais… É… estamos velhos e, pior, estamos fadados a nos prendermos a “idéias antiquadas”? Lembro que, quando era uma mocinha de 89, costumava criticar as gerações anteriores e, hoje, sinto que me tornei exatamente como eles. Mas ainda resta uma esprança, os 80’s foram os melhores, ao menos para mim. Se eu não tivesse vivido essa época, gostaria de ter vivido os 50’s ou 60’s, mas jamais os 70’s ou 90’s, a era da “Acadjmia”… E aqueles campeonatos de aeróbica? Afê! ;D Beijinhos!

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