Reminiscências dos anos 80 – O Lira Paulistana


por Nelson Biagio Jr*

1985. Uma gélida noite de sábado (sim, meus amigos, esta história é do tempo quando ainda se fazia frio no inverno de São Paulo…). A rua: Teodoro Sampaio, e lá estava eu ajudando a compor uma fila imensa, na porta do já histórico Teatro Lira Paulistana. Era a estréia da retomada do projeto Boca no Trombone (o original aconteceu em 1983), o qual visava revelar novas bandas e novos talentos e eu, como um novidadeiro compulsivo, tinha que estar lá…

O Lira Paulistana marcou não somente a mim como a toda uma geração inconformada com o mainstream cultural que dominava a mídia da época. Lá assisti a estréias de bandas e nomes como Ira!NauAkira S. e as Garotas que ErraramArrigo Barnabé (este já conhecia – inclusive pessoalmente – de longa data, lá de Londrina, no Paraná e do disco Clara Crocodilo, hoje um clássico), Itamar AssumpçãoCóleraRatos de PorãoFinis Africae entre outros.

Nessa noite, após algumas performances de teatro e alguns shows instrumentais, entra no palco o grupo Os Inocentes. Para mim, não era novidade, pois já havia assistido a outros shows da banda no também antológico Madame Satã, mas, mesmo assim, este foi marcante. Tocavam com uma agressividade, uma raiva que dava a música – já forte – uma dimensão ainda maior. Foi exatamente esta energia, esta vibração, que tentaram transmitir em seu primeiro disco, Pânico em São Paulo, lançado em 1986, mas, cá entre nós, não chegaram nem perto.

Foi também neste teatro que assisti vários outros shows memoráveis; bandas e artistas que, talvez por sua postura, talvez por puro preconceito, jamais alcançaram o estrelato e o sucesso ao qual – por suas qualidades e talento – certamente mereciam. Mas, o que realmente fazia o Lira Paulistana diferente era o seu clima libertário e democrático vigente logo após longos anos de ditadura e censura e, principalmente, as pessoas que lá se encontravam.

Lembro-me bem da já extinta Livraria Néon, pertinho do Lira, na esquina com a Rua Lisboa. Nos fundos desta livraria existia uma creperia (moda em São Paulo naqueles tempos…). Após sairmos do teatro, íamos para lá comer e tomar alguns chopes…Lá rolava de tudo: era o ponto de encontro de punks, músicos, bandas e malucos de todo o gênero, inclusive este escriba que vos fala…Tudo muito bem comandado pela gatíssima Ciça (minha amiga, por onde andas???).

Lá, às vezes rolava até um strip-tease básico ao som de muito blues. O Lira abria espaço para todas as tribos, todas as tendências, todos os segmentos. Era a utopia possível, o grito de liberdade de uma geração que nasceu e cresceu no Brasil dos generais. Éramos felizes.

*testo escrito em uma madrugada fria, no inverno de 2003.

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One thought on “Reminiscências dos anos 80 – O Lira Paulistana

  1. Wow… Consegui me transportar até a época e só tenho uma coisa a dizer… “lugar comum”, I know it, mas… “éramos felizes e não sabíamos” 🙂

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